O quilômetro 34: às vezes, é preciso andar para continuar correndo

O que a maratona me ensinou sobre atravessar anos difíceis sem parar.

Rafael Franco correndo uma maratona, usando camiseta laranja, próximo à linha de chegada

Se eu tivesse que resumir 2026 em uma imagem, diria que ele parece o quilômetro 34 de uma maratona.

Eu corro há muitos anos. Fiz minha primeira prova em 2010 e só fui correr uma maratona em 2024. Talvez isso já diga alguma coisa sobre a relação que construí com a corrida: nunca foi uma história de pressa. Foi uma história de tempo, experiência e, principalmente, de aprender a sustentar o ritmo.

Nos últimos meses, comecei a enxergar uma semelhança cada vez maior entre a corrida de longa distância e a vida de uma empresa.

No começo, todo mundo acha que consegue acelerar

A maratona tem uma armadilha curiosa. Nos primeiros quilômetros, quase tudo parece fácil demais. Você está descansado, preparado, cercado por gente e tomado pela energia da largada. A perna responde. A respiração está controlada. É tentador correr um pouco acima do que deveria.

O problema é que a maratona não cobra a conta na hora. Ela deixa você acreditar, por algum tempo, que aquela velocidade é sustentável. Só muitos quilômetros depois mostra quanto custou a empolgação do começo.

Aprendi que uma das maiores habilidades na longa distância não é saber acelerar. É saber se controlar quando você poderia acelerar.

Nos negócios, acontece algo parecido. Durante muito tempo, crescimento foi tratado quase como sinônimo de velocidade: crescer equipe, faturamento, novas frentes, vendas e investimentos. Mas empresa, assim como maratona, não é prova de cem metros.

O quilômetro 34

Quem já correu uma maratona sabe que existe um momento em que a prova muda. Para mim, essa imagem está perto do quilômetro 34.

Você já correu demais para fingir que está inteiro, mas ainda falta distância suficiente para não ignorar o que está sentindo. É ali que o corpo começa a negociar com a cabeça.

Talvez seja preciso diminuir o ritmo. Andar alguns metros. Beber água. Comer alguma coisa. Reorganizar a respiração. Fazer contas diferentes das que você fez na largada.

O plano que parecia perfeito no quilômetro 5 talvez já não sirva mais. Isso não significa que a prova deu errado. Significa que você chegou a uma parte em que inteligência vale mais do que vaidade.

2026 tem sido esse pedaço da prova

Este ano tem me feito pensar muito nisso. Não é um momento em que simplesmente acelerar resolve as coisas. O mercado está mais difícil, as empresas estão mais cautelosas e decisões que pareciam óbvias precisam ser pensadas com mais cuidado.

Na Alphacode, como em qualquer empresa que atravessa ciclos longos, existem anos em que você corre com vento a favor e anos em que precisa administrar cada quilômetro.

2026 tem sido um desses anos de administração. É preciso rever planos, escolher melhor onde colocar energia, cortar aquilo que pesa sem ajudar na prova, proteger caixa, preservar o time e continuar buscando oportunidades.

Em outros momentos, eu talvez interpretasse diminuir o ritmo como fracasso. Hoje penso diferente. Às vezes, andar alguns metros é exatamente o que permite voltar a correr depois.

Reduzir o ritmo não é desistir

Existe uma diferença enorme entre parar e reduzir o ritmo.

Parar é abandonar a prova. Reduzir o ritmo é continuar lendo a prova. É perceber que insistir na velocidade errada pode transformar um momento difícil em uma quebra definitiva.

Eu já senti isso correndo. Às vezes você precisa caminhar para controlar a frequência, recuperar a perna e continuar. Quem olha de fora pode achar que você está piorando. Você sabe que está fazendo exatamente o necessário para chegar ao fim.

Nos negócios, existe uma pressão permanente para aparentar aceleração. Parece que toda empresa precisa estar sempre crescendo, contratando, lançando, expandindo e anunciando alguma coisa.

Mas uma empresa longeva precisa aprender outra coisa: preservar capacidade para continuar existindo quando o cenário muda.

Não corra a prova dos outros

Outra coisa que a corrida me ensinou foi parar de olhar demais para a velocidade de quem está do lado.

Alguém passa por você e, quase instintivamente, dá vontade de acompanhar. Talvez aquele corredor esteja melhor treinado. Talvez tenha outra estratégia. Talvez esteja fazendo uma prova completamente diferente da sua.

Se você abandona seu plano para correr no ritmo dele, quem paga a conta é você.

Nos negócios, somos bombardeados pelo ritmo dos outros: a empresa que captou investimento, abriu uma unidade, dobrou de tamanho, apareceu na imprensa ou está contratando cem pessoas. Só que você não conhece necessariamente a prova que aquela empresa está correndo.

Depois de quase doze anos de Alphacode, tenho cada vez menos interesse em correr a prova de outra pessoa. Quero saber qual é o ritmo sustentável para a nossa.

Uma empresa também precisa chegar inteira

Demorei muitos anos para correr minha primeira maratona. E percebi que toda a experiência anterior importou quando cheguei lá: as provas menores, os treinos ruins, os dias em que corri mais rápido do que deveria e as vezes em que precisei aceitar que o corpo não respondia como eu queria.

Com empresa é parecido. Quase doze anos depois de fundar a Alphacode, tenho menos certezas absolutas do que tinha no começo. Em compensação, tenho muito mais repertório para entender quando acelerar, quando conservar e quando simplesmente continuar.

Talvez maturidade seja isso: parar de achar que força resolve tudo e começar a perceber que algumas provas são vencidas pela capacidade de permanecer.

Ainda estamos na prova

O quilômetro 34 não é confortável. Mas existe uma coisa importante sobre ele: você ainda está na prova.

Há muito caminho percorrido atrás de você e ainda existe caminho pela frente. Então você faz o que precisa ser feito: respira, recalcula, diminui o ritmo se for necessário, anda alguns metros se precisar e volta a correr.

Porque a corrida me ensinou uma coisa que tenho tentado lembrar também como empresário: às vezes, você precisa andar para conseguir terminar a maratona.

O importante é não confundir reduzir o ritmo com parar.

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