52 projetos vendidos e quase nenhum legado

Durante muitos anos, eu enxerguei a Alphacode com a cabeça de um programador.

E fazia todo sentido.

Antes de ser empresário, passei mais de 15 anos desenvolvendo software. Fui desenvolvedor júnior, pleno, sênior, coordenador, gerente e diretor.

Minha formação profissional inteira tinha me ensinado uma lógica relativamente simples: alguém precisava de um sistema, nós desenvolvíamos esse sistema, entregávamos e o trabalho estava concluído.

Quando fundei a Alphacode, naturalmente levei essa mesma lógica comigo.

Eu acreditava que tínhamos uma empresa de projetos de tecnologia. Nosso trabalho era vender projetos, desenvolver sistemas e entregá-los aos clientes.

Quanto mais projetos vendêssemos, maior seria a empresa.

Parecia óbvio.

Até eu começar a entender que programar talvez não fosse o fim.

Era apenas o começo.

Eu media o crescimento pelas coisas erradas

Durante os primeiros anos da Alphacode, duas métricas tinham um peso enorme para mim: a quantidade de projetos vendidos e a quantidade de pessoas trabalhando na empresa.

Se tínhamos vendido mais projetos do que no ano anterior, estávamos crescendo.

Se tínhamos contratado mais pessoas, estávamos crescendo.

Em 2019, por exemplo, vendemos 52 projetos.

Cinquenta e dois.

Naquela época, esse era um número que me dava orgulho. Era fácil olhar para aquilo e pensar que estávamos construindo uma empresa cada vez maior.

O problema é que eu estava confundindo movimento com progresso.

Grande parte dos nossos clientes naquele período eram startups ou empreendedores querendo tirar uma ideia do papel.

E não há absolutamente nada de errado nisso.

O problema estava naquilo que eu queria construir para a Alphacode.

Muitas dessas empresas recebiam o sistema, tentavam colocar o negócio de pé e, alguns meses depois, simplesmente desapareciam.

Nós voltávamos para o mercado e precisávamos encontrar outro cliente.

Vendíamos.

Desenvolvíamos.

Entregávamos.

E começávamos tudo outra vez.

Na época eu ainda não enxergava claramente, mas estávamos construindo uma empresa que precisava recomeçar todos os meses.

A planilha que mudou minha visão da Alphacode

A grande mudança começou quando fizemos nosso primeiro planejamento estratégico de verdade.

A Alphacode já tinha mais de cinco anos. Eu me sentei para analisar os números da empresa e descobri uma coisa que me incomodou profundamente.

Apenas 20% do nosso faturamento era recorrente.

Os outros 80% vinham principalmente das parcelas dos projetos que estávamos desenvolvendo.

Foi um choque.

Depois de mais de cinco anos construindo uma empresa, percebi que continuávamos dependendo enormemente do que vendêssemos no mês seguinte.

Era a famosa sensação de precisar matar um leão por dia.

Se parássemos de vender projetos, o faturamento começaria a desaparecer.

E havia algo ainda pior escondido nesses números.

Quando olhei algum tempo depois para aqueles 52 projetos vendidos em 2019, percebi que cerca de 90% deles já não estavam mais conosco.

O que parecia um grande ano comercial praticamente não havia deixado legado para a empresa.

Os projetos entravam.

Eram desenvolvidos.

Saíam.

Muitos dos negócios simplesmente deixavam de existir.

Foi quando comecei a perceber que talvez eu estivesse perseguindo a métrica errada.

A hospedagem me ensinou mais sobre negócios do que eu esperava

Uma das primeiras pistas já estava diante de mim havia algum tempo.

Comecei a perceber que, em determinados casos, tínhamos mais resultado ao longo do relacionamento com um cliente hospedando e sustentando aquilo que havíamos desenvolvido do que no próprio desenvolvimento inicial.

Aquilo parecia estranho para alguém com a minha formação.

Na minha cabeça de programador, o software era o produto.

Todo o resto vinha depois.

Na cabeça do empresário que eu começava a me tornar, passei a enxergar exatamente o contrário.

A programação inicial era apenas a porta de entrada.

Depois vinham hospedagem, sustentação, suporte, evolução, novas funcionalidades, integrações e anos de relacionamento.

Foi uma mudança importante de perspectiva.

O projeto deixou de ser o destino.

Passou a ser o primeiro passo de uma relação.

E isso mudou a maneira como começamos a escolher nossos clientes.

Tivemos que mudar nosso cliente ideal

Até aquele momento, atendíamos muitas startups e pessoas com boas ideias que queriam transformá-las em produtos digitais.

Mas começamos a fazer uma pergunta diferente:

Com quais clientes conseguimos imaginar uma relação daqui a cinco ou dez anos?

Isso nos levou a buscar cada vez mais empresas com negócios estabelecidos, faturamento real, operação existente e tecnologia ocupando um papel estratégico dentro da companhia.

Não significava simplesmente procurar empresas maiores.

Significava procurar relações mais longevas.

E essa mudança afetou tudo: a maneira de vender, o tipo de projeto que aceitávamos, os serviços que oferecíamos depois da implantação, a estrutura da equipe e até aquilo que passamos a considerar um bom cliente.

Mas havia outra transformação que precisava acontecer.

E talvez ela tenha sido ainda mais difícil.

Crescer por crescer estava cobrando uma conta

No final de 2019, perdemos alguns profissionais importantes em sequência.

Aquilo me marcou.

Hoje consigo relacionar parte daquele momento ao modelo que estávamos operando.

Tínhamos muitos projetos acontecendo simultaneamente, muita pressão por entrega e uma quantidade enorme de trabalhos que, depois de concluídos, simplesmente desapareciam da nossa rotina.

Era uma máquina alimentada por volume.

Mais projetos exigiam mais pessoas.

Mais pessoas exigiam mais projetos.

E a resposta para praticamente tudo era crescer mais.

Comecei a perceber que não adiantava construir uma empresa capaz de conquistar dezenas de clientes se não conseguíssemos construir relações duradouras nem com os clientes, nem com as pessoas que estavam construindo a empresa comigo.

Foi nesse período que criamos nosso grupo de liderança.

Passamos a reunir os principais líderes da empresa quinzenalmente para discutir não apenas projetos, mas a própria Alphacode.

Também estruturamos planos de carreira para pessoas que considerávamos fundamentais para o futuro da empresa.

Anos depois, existe um número que significa muito mais para mim do que aqueles 52 projetos vendidos em 2019:

os líderes que receberam aqueles planos de carreira em 2020 e 2021 continuam conosco até hoje.

Isso é crescimento.

Demorei um pouco para entender.

De 20% para 80%

Talvez a melhor maneira de explicar a transformação seja voltar para aquela primeira planilha.

Quando fizemos aquele planejamento estratégico, aproximadamente 20% do faturamento da Alphacode era recorrente.

Hoje essa relação praticamente se inverteu.

Cerca de 80% do nosso faturamento é recorrente e aproximadamente 20% vem de projetos.

Mas existe outro número de que gosto ainda mais.

Dos projetos que vendemos em 2021, algo entre 60% e 70% daqueles clientes continuam conosco em 2026.

Compare isso com 2019, quando aproximadamente 90% dos projetos vendidos já tinham desaparecido da empresa poucos anos depois.

Essa comparação diz muito mais sobre a evolução da Alphacode do que simplesmente saber quantos projetos vendemos em cada ano.

Porque hoje, quando conquistamos um cliente, nossa expectativa não é entregar um sistema e procurar o próximo.

Queremos construir algo juntos durante anos.

Eu precisei deixar de pensar apenas como programador

Talvez essa tenha sido uma das transições mais difíceis da minha carreira.

Programadores são treinados para entregar.

Existe um problema.

Existe uma solução.

Você desenvolve a solução.

Entrega.

Fim.

Empresas não funcionam assim.

Hoje sei que um projeto pode ser tecnicamente excelente e, ainda assim, ter pouquíssimo valor para a empresa que o desenvolveu.

Também sei que uma venda pode parecer pequena no primeiro ano e se transformar em uma relação extraordinária durante os dez anos seguintes.

Aprendi a olhar menos para o tamanho da primeira proposta e mais para o potencial da relação.

Menos para quantos projetos conseguimos colocar para dentro.

Mais para quantos clientes querem continuar dentro.

Menos para quantas pessoas conseguimos contratar.

Mais para quantas pessoas boas conseguimos fazer crescer conosco.

E talvez essa seja uma das maiores diferenças entre o programador que fundou a Alphacode e o empresário que eu tento ser hoje.

Se eu pudesse voltar para 2019 e conversar por alguns minutos com aquele Rafael que comemorava 52 projetos vendidos e media crescimento pela quantidade de gente dentro da empresa, não faria uma grande palestra sobre estratégia, margem, LTV ou receita recorrente.

Diria apenas:

Pare de focar em quantidade. Comece a focar em qualidade.

Demorei alguns anos para entender.

Mas, quando entendi, percebi que não precisava construir uma empresa que começasse novamente todos os meses.

Precisava construir uma empresa em que cada ano deixasse alguma coisa para o próximo.

A venda que me ensinou a dizer não para o cliente

Durante muito tempo eu achei que ser um bom fornecedor significava tentar atender ao máximo aquilo que o cliente pedia.

Hoje penso diferente.

Algumas das melhores decisões que tomei em vendas nos últimos anos foram justamente aquelas em que tive coragem de dizer:

Se precisa ser dessa maneira, talvez a Alphacode não seja a empresa certa para fazer esse projeto.

Mas eu não aprendi isso em um livro de vendas. Aprendi errando.

Os primeiros sinais estavam na primeira reunião

No começo de 2020, recebemos um contato que me deixou particularmente animado.

Era uma rede de restaurantes que eu admirava muito. Gostava da marca, do posicionamento e, principalmente, da qualidade dos produtos. Eles estavam crescendo e queriam construir um aplicativo para melhorar a experiência dos clientes.

Para mim, havia ainda um componente estratégico importante. Pouco tempo antes, tínhamos conquistado nosso primeiro grande cliente de Food, depois de uma concorrência que durou praticamente todo o ano de 2018. Eu começava a enxergar naquele mercado uma oportunidade enorme para a Alphacode.

Quando essa segunda grande marca chegou espontaneamente até nós, pensei que talvez estivéssemos começando a construir alguma coisa ali.

E eu queria muito aquele projeto. Talvez até mais do que deveria.

O cliente já tinha estudado bastante o que havíamos desenvolvido anteriormente. Mas rapidamente percebi uma diferença importante entre os dois projetos.

No nosso primeiro grande projeto de Food, a conversa girava muito em torno do negócio. Precisávamos vender, colocar o delivery no ar e fazer aquilo funcionar.

Nesse novo projeto, desde as primeiras conversas, o foco era diferente. Falávamos muito sobre design, experiência, animações, transições de tela e detalhes visuais.

Não havia nada de errado nisso. Uma boa experiência é parte fundamental de qualquer produto digital.

O que começou a me incomodar foi perceber que estávamos discutindo tudo aquilo antes de termos uma conversa suficientemente profunda sobre a pergunta principal:

O que esse aplicativo precisa produzir para o negócio?

Mesmo assim, naquele momento eu não confrontei essa visão. Dei espaço ao cliente.

Quando o cliente começou a escolher a tecnologia

Na época, nós tínhamos bastante experiência utilizando Ionic. Não era a tecnologia mais sofisticada do mundo, mas conhecíamos profundamente aquela stack.

Sabíamos suas limitações, tínhamos equipe, projetos reais rodando e conseguíamos entregar com velocidade e custo competitivo.

O cliente, entretanto, não gostava de alguns aspectos da experiência que tinha visto em outros aplicativos desenvolvidos daquela maneira, principalmente animações e transições.

Por isso, colocou uma condição para avançarmos: o aplicativo deveria ser desenvolvido em Flutter.

Hoje Flutter é uma tecnologia absolutamente estabelecida no desenvolvimento mobile. Mas estou falando do começo de 2020.

Era uma tecnologia relativamente nova, com documentação ainda limitada em alguns pontos e um ecossistema muito menor. E havia outro detalhe ainda mais importante: a Alphacode nunca tinha desenvolvido um projeto em Flutter.

Eu sabia que estávamos saindo da nossa especialidade. E aceitei.

Por que eu aceitei?

Essa talvez seja a parte mais importante dessa história.

Não foi porque eu acreditasse tecnicamente que aquela era necessariamente a melhor decisão. Aceitei porque queria o cliente.

Eu queria crescer naquele segmento. Tínhamos conquistado nossa primeira grande rede de Food e aquela seria a segunda. Era uma marca que eu admirava. Para mim, naquele momento, conquistar aquele logo tinha um valor estratégico enorme.

Deixei a vontade de fechar a venda falar mais alto do que a nossa convicção técnica.

E pagamos o preço por isso.

O problema não foi apenas tecnológico

Logo começaram a aparecer dificuldades.

Encontrávamos obstáculos técnicos para os quais ainda havia pouca documentação. Coisas que nossa equipe resolveria rapidamente dentro de uma tecnologia que dominava exigiam investigação, tentativa e erro.

O projeto começou a se estender. E quanto mais ele se estendia, mais problemas apareciam. A estabilidade também sofreu.

Só que o efeito mais importante não aconteceu dentro do código. Aconteceu no negócio.

O cliente começou a perder confiança para colocar toda a força naquele novo canal. O aplicativo entrou em uma espécie de soft launch infinito. Estava lá, funcionava, mas nunca recebia toda a energia que um novo canal digital precisa para ganhar relevância.

E então apareceu um ciclo que, depois de tantos anos trabalhando com produtos digitais, aprendi a temer:

  • o cliente não colocava energia porque o canal ainda não vendia;
  • o canal não vendia porque o cliente não colocava energia;
  • quanto menos vendia, menor era a disposição para investir;
  • quanto menor era o investimento, menos chance o canal tinha de vender.

Apesar de termos desenvolvido e colocado aquele produto no mercado, eu nunca o considerei um case de sucesso da Alphacode.

Entregar software e gerar resultado são duas coisas muito diferentes.

O aprendizado apareceu no cliente seguinte

Algum tempo depois, estávamos negociando com outro grande grupo de restaurantes. Era uma oportunidade ainda maior.

Durante uma das reuniões, a gerente responsável pelo projeto colocou uma condição parecida. Ela queria que o aplicativo fosse desenvolvido em React Native.

A situação era curiosamente familiar: uma grande marca, um projeto que eu queria muito e uma tecnologia que, naquele momento, não fazia parte da especialidade da Alphacode.

Só que dessa vez eu tinha uma experiência anterior na bagagem.

Parei a reunião e disse, em essência:

Se a utilização de React Native for uma condição para o projeto, eu acho que não faz sentido vocês avançarem com a Alphacode.

Pode parecer estranho para um vendedor dizer isso. Eu estava diante de um cliente enorme e basicamente dizia que preferia perder o contrato a aceitar uma condição que não considerava adequada para nós.

O cliente não estava contratando a Alphacode para concordar com ele. Estava contratando nossa experiência.

Um especialista precisa saber dizer não

Existe uma tentação muito grande em vendas de tecnologia de responder sempre: “Sim, conseguimos fazer.”

  • Quer React Native? Fazemos.
  • Quer Flutter? Fazemos.
  • Quer determinada arquitetura? Fazemos.
  • Quer trabalhar daquela maneira? Fazemos.

No curto prazo, essa postura pode ajudar a fechar contratos. Mas existe uma diferença enorme entre ser uma empresa capaz de executar determinada tecnologia e ser realmente especialista naquilo que está propondo.

Quando um cliente contrata uma empresa especializada, ele não está comprando apenas horas de programação. Está comprando também os erros que aquela empresa já cometeu, os projetos que deram certo, os que deram errado, as decisões técnicas que já precisaram ser revistas e os problemas de produção enfrentados de madrugada.

Parte da responsabilidade de um especialista é justamente impedir que o cliente tome determinadas decisões, mesmo quando ele está convicto delas.

Isso não significa arrogância. Também não significa que o fornecedor sempre está certo. Significa ter coragem de colocar sua experiência na mesa, inclusive quando isso coloca a venda em risco.

Algumas vendas você precisa estar disposto a perder

Curiosamente, aquela conversa no projeto seguinte não fez com que perdêssemos o cliente. Aconteceu o contrário. Avançamos, e aquele grupo acabou se tornando um dos grandes clientes da história da Alphacode.

Mas o principal aprendizado não é que dizer não ajuda a vender. Às vezes você vai dizer não e realmente vai perder o contrato.

O aprendizado que ficou para mim é outro: existem projetos que você só deveria aceitar se estiver disposto a defender aquilo em que acredita.

Eu queria tanto conquistar aquela segunda grande marca de Food que aceitei uma condição que contrariava aquilo que nossa experiência recomendava naquele momento.

O projeto aconteceu. O aplicativo foi entregue. O logo poderia perfeitamente estar em uma apresentação comercial nossa como mais um grande case.

Mas eu sei o que aconteceu nos bastidores. E talvez seja justamente por isso que considero essa experiência tão importante na minha trajetória.

Nem todo projeto que não se transforma em um grande case foi inútil. Alguns deles servem para construir algo muito mais valioso: experiência.

Experiência para reconhecer os sinais mais cedo, fazer perguntas melhores e, quando necessário, dizer não antes que a vontade de fechar uma venda fale mais alto do que a responsabilidade de entregar resultado.