O que um tomate me ensinou sobre a qualidade de um aplicativo

Imagem ilustrativa sobre quem criou o app do Madero.

Um pequeno problema no pedido de um cliente revelou uma das maiores exigências de construir produtos digitais: cuidar do que acontece no uso real.

Era sábado, depois das dez da noite, quando fui acordado por causa de um tomate.

Um cliente não conseguia retirar o ingrediente de um lanche no aplicativo do Madero. Ele acionou o suporte do Madero. O suporte acionou o diretor, que acionou a minha equipe, que me acionou. A dificuldade percorreu esse caminho até conseguirmos resolver o problema daquela pessoa.

Para quem olha de fora, pode parecer uma mobilização enorme por causa de um tomate. Para mim, esse episódio ajuda a explicar por que gosto tanto desse projeto.

Aquela pessoa não virou simplesmente um número.

A qualidade aparece nos detalhes de uso

Muita gente me diz que gosta do aplicativo do Madero e o considera uma referência entre os aplicativos de delivery. Eu prefiro observar o que existe por trás dessa percepção.

O aplicativo não precisa de muita firula para cumprir seu papel. Seu valor está em permitir que a pessoa escolha o que quer, personalize o pedido e compre com facilidade.

Só que entregar essa experiência exige atenção constante ao produto.

Retirar um ingrediente pode parecer um detalhe pequeno durante uma apresentação de funcionalidades. Para o cliente que quer fazer aquele pedido, é uma necessidade concreta. Se ele não consegue, o aplicativo deixou de atender ao que precisava naquele momento.

É nesse nível de detalhe que percebo a exigência da equipe do Madero. A experiência não é avaliada apenas pela quantidade de recursos disponíveis, mas pela tranquilidade com que uma pessoa consegue concluir uma tarefa simples.

O trabalho continua depois de resolver o atendimento

No caso daquele sábado, identificamos a causa raiz e aplicamos a correção no release seguinte.

Mas resolver o problema de uma pessoa era apenas a primeira parte. Existe também uma exigência de documentação sempre que acontece um incidente: explicar o que gerou a falha, como ela foi resolvida e por que a correção deve impedir que volte a acontecer.

Esse processo obriga a equipe a compreender o incidente e justificar a solução adotada. O aprendizado fica registrado e pode orientar o trabalho seguinte.

Resolver a dificuldade de um cliente é necessário. Usar aquele episódio para melhorar a experiência dos próximos amplia o valor do atendimento.

Com o tempo, essa disciplina vai refinando o produto: uma dificuldade identificada, uma causa compreendida, uma correção aplicada. Depois outra. E outra.

O uso real sempre encontra alguma coisa

Por mais cuidadoso que seja o planejamento, o uso real revela situações que não aparecem em uma reunião, em um protótipo ou em uma demonstração.

É quando milhares de pessoas escolhem produtos diferentes, usam aparelhos diferentes, mudam de ideia no meio do pedido e tentam concluir uma tarefa em condições que a equipe não imaginou completamente.

Isso não significa que um produto foi mal planejado. Significa que software é uma experiência viva. A qualidade não é uma condição alcançada uma vez e mantida para sempre; é uma prática de observação, correção e evolução.

Evoluir também é aperfeiçoar o que já existe

Em projetos de tecnologia, é fácil preencher a agenda com novas funcionalidades. Sempre existe uma ferramenta para incorporar, uma tela para redesenhar ou uma ideia interessante para colocar no planejamento.

A experiência com o Madero me faz valorizar também o esforço dedicado ao que já está nas mãos do cliente.

O fluxo que precisa ficar mais claro. A personalização que deveria funcionar sem dificuldade. O problema que apareceu em um atendimento e merece ser entendido até a causa.

Essa evolução pode ser pouco chamativa em uma demonstração, mas faz diferença quando alguém abre o aplicativo para pedir um lanche.

Para mim, o básico bem feito exige essa disposição de voltar ao produto e aperfeiçoá-lo continuamente. Não é falta de ambição. É uma forma mais séria de respeitar quem usa o que construímos.

Uma referência para quem desenvolve aplicativos

Como fundador da Alphacode, gosto de participar de projetos que nos exigem esse cuidado. A qualidade depende das escolhas de desenvolvimento, mas também da atenção que a empresa dedica ao que acontece depois que o aplicativo chega ao cliente.

O episódio do tomate ficou na minha memória porque tornou essa postura muito concreta. Havia uma pessoa tentando fazer um pedido, e a dificuldade dela mereceu atenção, investigação e uma correção no produto.

Quando penso no que faz um aplicativo ser bom, penso também nisso: na capacidade de tratar uma pequena fricção como informação importante, e não como um caso isolado que pode ser esquecido assim que o atendimento termina.

Na sua empresa, o que acontece com a dificuldade relatada por um único cliente?

Até onde ela consegue chegar dentro do produto?

O quilômetro 34: às vezes, é preciso andar para continuar correndo

Rafael Franco correndo uma maratona, usando camiseta laranja, próximo à linha de chegada

O que a maratona me ensinou sobre atravessar anos difíceis sem parar.

Rafael Franco correndo uma maratona, usando camiseta laranja, próximo à linha de chegada

Se eu tivesse que resumir 2026 em uma imagem, diria que ele parece o quilômetro 34 de uma maratona.

Eu corro há muitos anos. Fiz minha primeira prova em 2010 e só fui correr uma maratona em 2024. Talvez isso já diga alguma coisa sobre a relação que construí com a corrida: nunca foi uma história de pressa. Foi uma história de tempo, experiência e, principalmente, de aprender a sustentar o ritmo.

Nos últimos meses, comecei a enxergar uma semelhança cada vez maior entre a corrida de longa distância e a vida de uma empresa.

No começo, todo mundo acha que consegue acelerar

A maratona tem uma armadilha curiosa. Nos primeiros quilômetros, quase tudo parece fácil demais. Você está descansado, preparado, cercado por gente e tomado pela energia da largada. A perna responde. A respiração está controlada. É tentador correr um pouco acima do que deveria.

O problema é que a maratona não cobra a conta na hora. Ela deixa você acreditar, por algum tempo, que aquela velocidade é sustentável. Só muitos quilômetros depois mostra quanto custou a empolgação do começo.

Aprendi que uma das maiores habilidades na longa distância não é saber acelerar. É saber se controlar quando você poderia acelerar.

Nos negócios, acontece algo parecido. Durante muito tempo, crescimento foi tratado quase como sinônimo de velocidade: crescer equipe, faturamento, novas frentes, vendas e investimentos. Mas empresa, assim como maratona, não é prova de cem metros.

O quilômetro 34

Quem já correu uma maratona sabe que existe um momento em que a prova muda. Para mim, essa imagem está perto do quilômetro 34.

Você já correu demais para fingir que está inteiro, mas ainda falta distância suficiente para não ignorar o que está sentindo. É ali que o corpo começa a negociar com a cabeça.

Talvez seja preciso diminuir o ritmo. Andar alguns metros. Beber água. Comer alguma coisa. Reorganizar a respiração. Fazer contas diferentes das que você fez na largada.

O plano que parecia perfeito no quilômetro 5 talvez já não sirva mais. Isso não significa que a prova deu errado. Significa que você chegou a uma parte em que inteligência vale mais do que vaidade.

2026 tem sido esse pedaço da prova

Este ano tem me feito pensar muito nisso. Não é um momento em que simplesmente acelerar resolve as coisas. O mercado está mais difícil, as empresas estão mais cautelosas e decisões que pareciam óbvias precisam ser pensadas com mais cuidado.

Na Alphacode, como em qualquer empresa que atravessa ciclos longos, existem anos em que você corre com vento a favor e anos em que precisa administrar cada quilômetro.

2026 tem sido um desses anos de administração. É preciso rever planos, escolher melhor onde colocar energia, cortar aquilo que pesa sem ajudar na prova, proteger caixa, preservar o time e continuar buscando oportunidades.

Em outros momentos, eu talvez interpretasse diminuir o ritmo como fracasso. Hoje penso diferente. Às vezes, andar alguns metros é exatamente o que permite voltar a correr depois.

Reduzir o ritmo não é desistir

Existe uma diferença enorme entre parar e reduzir o ritmo.

Parar é abandonar a prova. Reduzir o ritmo é continuar lendo a prova. É perceber que insistir na velocidade errada pode transformar um momento difícil em uma quebra definitiva.

Eu já senti isso correndo. Às vezes você precisa caminhar para controlar a frequência, recuperar a perna e continuar. Quem olha de fora pode achar que você está piorando. Você sabe que está fazendo exatamente o necessário para chegar ao fim.

Nos negócios, existe uma pressão permanente para aparentar aceleração. Parece que toda empresa precisa estar sempre crescendo, contratando, lançando, expandindo e anunciando alguma coisa.

Mas uma empresa longeva precisa aprender outra coisa: preservar capacidade para continuar existindo quando o cenário muda.

Não corra a prova dos outros

Outra coisa que a corrida me ensinou foi parar de olhar demais para a velocidade de quem está do lado.

Alguém passa por você e, quase instintivamente, dá vontade de acompanhar. Talvez aquele corredor esteja melhor treinado. Talvez tenha outra estratégia. Talvez esteja fazendo uma prova completamente diferente da sua.

Se você abandona seu plano para correr no ritmo dele, quem paga a conta é você.

Nos negócios, somos bombardeados pelo ritmo dos outros: a empresa que captou investimento, abriu uma unidade, dobrou de tamanho, apareceu na imprensa ou está contratando cem pessoas. Só que você não conhece necessariamente a prova que aquela empresa está correndo.

Depois de quase doze anos de Alphacode, tenho cada vez menos interesse em correr a prova de outra pessoa. Quero saber qual é o ritmo sustentável para a nossa.

Uma empresa também precisa chegar inteira

Demorei muitos anos para correr minha primeira maratona. E percebi que toda a experiência anterior importou quando cheguei lá: as provas menores, os treinos ruins, os dias em que corri mais rápido do que deveria e as vezes em que precisei aceitar que o corpo não respondia como eu queria.

Com empresa é parecido. Quase doze anos depois de fundar a Alphacode, tenho menos certezas absolutas do que tinha no começo. Em compensação, tenho muito mais repertório para entender quando acelerar, quando conservar e quando simplesmente continuar.

Talvez maturidade seja isso: parar de achar que força resolve tudo e começar a perceber que algumas provas são vencidas pela capacidade de permanecer.

Ainda estamos na prova

O quilômetro 34 não é confortável. Mas existe uma coisa importante sobre ele: você ainda está na prova.

Há muito caminho percorrido atrás de você e ainda existe caminho pela frente. Então você faz o que precisa ser feito: respira, recalcula, diminui o ritmo se for necessário, anda alguns metros se precisar e volta a correr.

Porque a corrida me ensinou uma coisa que tenho tentado lembrar também como empresário: às vezes, você precisa andar para conseguir terminar a maratona.

O importante é não confundir reduzir o ritmo com parar.

Quando a IA acelera o código, ouvir passa a valer mais

A inteligência artificial acelera a execução do software, mas aumenta o valor de entender problemas, fazer perguntas e ouvir o cliente.

Durante boa parte da minha carreira, o maior desafio era fazer o software sair do papel. Hoje, a inteligência artificial tornou essa parte muito mais rápida.

Há quase 25 anos eu publico sites, sistemas e aplicativos. Passei boa parte da minha vida profissional programando, liderando times de tecnologia e construindo software. Durante muito tempo, enxerguei desenvolvimento como um trabalho essencialmente artesanal.

Era trabalhoso. Era demorado. Exigia muita gente, muita coordenação, muita reunião técnica e muita escolha de ferramenta, framework, linguagem, arquitetura e metodologia.

Eu sempre achei desenvolvimento lento demais. Uma ideia relativamente simples podia levar semanas ou meses para virar produto, e boa parte da energia do time era consumida dentro da própria “cozinha” do desenvolvimento.

A proporção se inverteu

Falei isso recentemente para a minha equipe na Alphacode. Durante muito tempo, nosso trabalho era mais ou menos assim:

  • 20% entendendo o cliente, planejando e discutindo o problema;
  • 80% executando, implementando, testando, corrigindo e publicando.

Hoje, acho que essa lógica precisa ser praticamente invertida:

  • 70% ou 80% ouvindo, entendendo, questionando e desenhando o problema;
  • 20% ou 30% executando.

Não porque a execução deixou de ser importante, mas porque ela ficou muito mais rápida. A inteligência artificial está comprimindo brutalmente o tempo entre uma decisão e sua implementação. Coisas que antes exigiam horas ou dias de trabalho hoje podem ser prototipadas em minutos.

Isso muda principalmente aquilo que passa a ter valor.

Programar perdeu valor?

Essa é uma das perguntas que mais incomodam quem trabalha com tecnologia. Há alguns anos, empresas disputavam desenvolvedores, cursos explodiam, os salários subiam e faltava gente.

Hoje, em muitos momentos, a sensação parece quase oposta: como se programar tivesse perdido valor.

Eu não acho que seja exatamente isso. Programar não perdeu valor; deixou de ser suficiente como diferencial.

Saber programar continua sendo importante. Mas escrever código deixou de ser o principal diferencial. Cada vez mais, o diferencial está em entender o que precisa ser construído, ouvir o cliente e descobrir o problema real por trás do que ele está pedindo.

Está em traduzir uma dor de negócio em uma solução que faça sentido. E isso é muito mais humano do que técnico.

O cliente não quer saber a marca da panela

Existe uma analogia que repito há muitos anos para os times de desenvolvimento.

Quando um cliente entra em um restaurante, ele não quer saber a marca da panela. Não quer saber se ela é de ferro, barro ou inox. Ele quer saber se a comida é boa.

Na tecnologia, durante muito tempo, nós nos apaixonamos demais pela cozinha. Discutimos framework, linguagem, biblioteca, arquitetura e metodologia, enquanto o cliente estava tentando resolver um problema de vendas, margem, operação, experiência, logística ou atendimento.

E muitas vezes respondíamos falando da panela.

A inteligência artificial está tornando esse descompasso ainda mais evidente. Se a implementação ficou mais rápida e acessível, a tecnologia por si só deixa de justificar tanto valor. O valor precisa estar naquilo que vem antes: na capacidade de entender.

A IA está revelando uma regra antiga

Quanto mais observo essa transformação, mais tenho a impressão de que a inteligência artificial não está criando uma nova regra. Ela está apenas deixando óbvia uma regra antiga.

Tecnologia sempre foi meio, nunca foi fim. Durante muitos anos, a complexidade da implementação ocupou o centro da conversa porque construir software era difícil, caro e demorado.

Agora, conforme o “como fazer” se torna mais rápido, automatizado e assistido por inteligência artificial, sobra uma pergunta mais importante:

O que realmente vale a pena fazer?

Essa resposta não vem de uma IDE, de um framework ou de um agente de código. Ela vem de conversa, contexto, repertório, negócio, empatia e capacidade de escuta.

Fazer perguntas passou a valer mais do que ter respostas prontas

Essa é uma das maiores mudanças para quem trabalha com desenvolvimento de software. Durante anos, um bom profissional de tecnologia era valorizado pela capacidade de responder perguntas técnicas:

  • Como fazemos isso?
  • Qual tecnologia usamos?
  • Como resolvemos esse problema?

Agora, cada vez mais, o profissional de maior valor talvez seja aquele capaz de fazer perguntas melhores:

  • Por que você precisa disso?
  • Que problema você está tentando resolver?
  • O que acontece hoje sem essa solução?
  • Quem é impactado?
  • Como você mede se deu certo?
  • Isso realmente precisa existir?

Esse tipo de pergunta evita desperdício, produtos inúteis e meses de desenvolvimento em funcionalidades que ninguém usa. Principalmente, conecta tecnologia com resultado.

Depois de quase 25 anos, vejo meu trabalho de outro jeito

Existe uma ironia pessoal nisso tudo. Passei mais de duas décadas trabalhando com desenvolvimento e comecei minha carreira olhando para a programação como o centro da entrega.

Depois, como empresário, fui entendendo que o software era apenas uma parte de algo maior. Agora, com a inteligência artificial acelerando a implementação de uma forma que eu nunca imaginei ver tão cedo, essa percepção ficou ainda mais clara.

Continuo apaixonado por tecnologia. Continuo gostando de construir e achando fascinante transformar uma ideia em produto. Mas hoje valorizo muito mais a conversa que acontece antes da primeira linha de código.

É ali que o projeto começa de verdade. Não quando alguém abre o editor, cria o repositório ou envia o primeiro prompt para uma IA.

O projeto começa quando alguém entende profundamente o problema de outra pessoa.

O que continua sendo humano

Talvez essa seja a parte mais interessante da nova era. Quanto mais a tecnologia se torna capaz de executar sozinha, mais valiosa se torna uma habilidade que nenhuma ferramenta deveria substituir:

a capacidade humana de ouvir o outro.