Na maioria das reuniões que participo com empresas interessadas em criar uma fintech de crédito, existe um padrão que se repete: a ideia inicial quase sempre parte de uma integração com bancos ou financeiras tradicionais para viabilizar o crédito.
Esse caminho faz sentido no começo. Ele reduz barreiras regulatórias, acelera o go-to-market e permite validar o modelo.
O problema é que, se essa estrutura vira definitiva, ela limita profundamente o crescimento e a rentabilidade do negócio.
E isso não é uma discussão teórica. É algo que aparece na prática, em reuniões reais.
O modelo tradicional de fintech de crédito
No modelo mais comum, a fintech atua como originadora:
- Capta o cliente
- Faz a jornada digital
- Coleta dados
- Inicia o processo de crédito
Quem efetivamente:
- Analisa o risco final
- Disponibiliza o capital
-
Define taxas e prazos
é o banco ou a financeira parceira.
No fim, a fintech recebe uma comissão, uma taxa por operação ou um revenue share.
Funciona. Mas existe um detalhe importante.
Quem coloca o dinheiro controla o spread.
E quem controla o spread controla o lucro.
Na prática, a fintech faz grande parte do trabalho e fica com uma fatia limitada do resultado financeiro.
Onde está o erro estrutural
O erro não está em usar parceiros financeiros. Eles são fundamentais.
O erro está em abrir mão completamente da estrutura de financiamento.
Quando a fintech depende integralmente de terceiros para funding, ela:
- Tem margem limitada
- Fica refém de políticas externas
- Perde flexibilidade para inovar em modelos de cobrança
- Tem dificuldade para escalar com previsibilidade
É aqui que entra a inversão de lógica.
A inversão da lógica: assumir o financiamento
Em vez de apenas originar crédito para um banco, a fintech pode assumir o papel de financiadora do próprio serviço ou produto.
Funciona assim:
- A empresa analisa o cliente
- Define critérios internos de crédito
- Financia diretamente a operação em parcelas
- O resultado financeiro permanece dentro do grupo
Em muitos casos, especialmente quando falamos de prestação de serviços, nem existe um grande desembolso inicial.
O custo é diluído ao longo do tempo, enquanto a receita financeira passa a ser recorrente.
Isso muda completamente a equação do negócio.
A importância de separar operação e crédito
Um ponto fundamental, e que sempre recomendo, é a separação clara entre operação e crédito.
O modelo mais saudável é:
- Uma empresa focada na operação, tecnologia e experiência do cliente
- Outra empresa dedicada exclusivamente à estrutura de crédito
Essa empresa de crédito deve operar:
- Com governança própria
- Gestão de risco clara
- Conectada a um parceiro regulado pelo Banco Central
Essa separação traz benefícios enormes:
- Reduz risco jurídico e financeiro
- Facilita compliance
- Permite escalar o crédito de forma controlada
- Dá transparência para investidores e parceiros
Não é sobre “burlar” o sistema. É sobre estruturar corretamente.
Por que esse modelo muda o jogo
Quando a fintech assume o financiamento de forma estruturada, alguns efeitos aparecem rapidamente:
- Margens maiores
- Previsibilidade de receita
- Mais controle sobre a jornada do cliente
- Capacidade real de desenhar produtos financeiros sob medida
- Maior valor estratégico do negócio no longo prazo
A fintech deixa de ser apenas um canal de distribuição e passa a ser, de fato, uma empresa financeira.
Não é uma decisão tecnológica. É estratégica.
Muita gente discute fintech olhando apenas para tecnologia, APIs e integrações.
Tudo isso é importante, mas não resolve o principal.
A estrutura financeira define o sucesso ou o fracasso da operação.
Decisões erradas no início podem até acelerar o lançamento, mas custam muito caro depois.
Decisões sólidas, mesmo que mais complexas, constroem negócios sustentáveis.
Esse tipo de discussão raramente aparece em pitch decks ou posts virais, mas é ela que define quem vai crescer de verdade no mercado de crédito.



