O que um tomate me ensinou sobre a qualidade de um aplicativo

Imagem ilustrativa sobre quem criou o app do Madero.

Um pequeno problema no pedido de um cliente revelou uma das maiores exigências de construir produtos digitais: cuidar do que acontece no uso real.

Era sábado, depois das dez da noite, quando fui acordado por causa de um tomate.

Um cliente não conseguia retirar o ingrediente de um lanche no aplicativo do Madero. Ele acionou o suporte do Madero. O suporte acionou o diretor, que acionou a minha equipe, que me acionou. A dificuldade percorreu esse caminho até conseguirmos resolver o problema daquela pessoa.

Para quem olha de fora, pode parecer uma mobilização enorme por causa de um tomate. Para mim, esse episódio ajuda a explicar por que gosto tanto desse projeto.

Aquela pessoa não virou simplesmente um número.

A qualidade aparece nos detalhes de uso

Muita gente me diz que gosta do aplicativo do Madero e o considera uma referência entre os aplicativos de delivery. Eu prefiro observar o que existe por trás dessa percepção.

O aplicativo não precisa de muita firula para cumprir seu papel. Seu valor está em permitir que a pessoa escolha o que quer, personalize o pedido e compre com facilidade.

Só que entregar essa experiência exige atenção constante ao produto.

Retirar um ingrediente pode parecer um detalhe pequeno durante uma apresentação de funcionalidades. Para o cliente que quer fazer aquele pedido, é uma necessidade concreta. Se ele não consegue, o aplicativo deixou de atender ao que precisava naquele momento.

É nesse nível de detalhe que percebo a exigência da equipe do Madero. A experiência não é avaliada apenas pela quantidade de recursos disponíveis, mas pela tranquilidade com que uma pessoa consegue concluir uma tarefa simples.

O trabalho continua depois de resolver o atendimento

No caso daquele sábado, identificamos a causa raiz e aplicamos a correção no release seguinte.

Mas resolver o problema de uma pessoa era apenas a primeira parte. Existe também uma exigência de documentação sempre que acontece um incidente: explicar o que gerou a falha, como ela foi resolvida e por que a correção deve impedir que volte a acontecer.

Esse processo obriga a equipe a compreender o incidente e justificar a solução adotada. O aprendizado fica registrado e pode orientar o trabalho seguinte.

Resolver a dificuldade de um cliente é necessário. Usar aquele episódio para melhorar a experiência dos próximos amplia o valor do atendimento.

Com o tempo, essa disciplina vai refinando o produto: uma dificuldade identificada, uma causa compreendida, uma correção aplicada. Depois outra. E outra.

O uso real sempre encontra alguma coisa

Por mais cuidadoso que seja o planejamento, o uso real revela situações que não aparecem em uma reunião, em um protótipo ou em uma demonstração.

É quando milhares de pessoas escolhem produtos diferentes, usam aparelhos diferentes, mudam de ideia no meio do pedido e tentam concluir uma tarefa em condições que a equipe não imaginou completamente.

Isso não significa que um produto foi mal planejado. Significa que software é uma experiência viva. A qualidade não é uma condição alcançada uma vez e mantida para sempre; é uma prática de observação, correção e evolução.

Evoluir também é aperfeiçoar o que já existe

Em projetos de tecnologia, é fácil preencher a agenda com novas funcionalidades. Sempre existe uma ferramenta para incorporar, uma tela para redesenhar ou uma ideia interessante para colocar no planejamento.

A experiência com o Madero me faz valorizar também o esforço dedicado ao que já está nas mãos do cliente.

O fluxo que precisa ficar mais claro. A personalização que deveria funcionar sem dificuldade. O problema que apareceu em um atendimento e merece ser entendido até a causa.

Essa evolução pode ser pouco chamativa em uma demonstração, mas faz diferença quando alguém abre o aplicativo para pedir um lanche.

Para mim, o básico bem feito exige essa disposição de voltar ao produto e aperfeiçoá-lo continuamente. Não é falta de ambição. É uma forma mais séria de respeitar quem usa o que construímos.

Uma referência para quem desenvolve aplicativos

Como fundador da Alphacode, gosto de participar de projetos que nos exigem esse cuidado. A qualidade depende das escolhas de desenvolvimento, mas também da atenção que a empresa dedica ao que acontece depois que o aplicativo chega ao cliente.

O episódio do tomate ficou na minha memória porque tornou essa postura muito concreta. Havia uma pessoa tentando fazer um pedido, e a dificuldade dela mereceu atenção, investigação e uma correção no produto.

Quando penso no que faz um aplicativo ser bom, penso também nisso: na capacidade de tratar uma pequena fricção como informação importante, e não como um caso isolado que pode ser esquecido assim que o atendimento termina.

Na sua empresa, o que acontece com a dificuldade relatada por um único cliente?

Até onde ela consegue chegar dentro do produto?

O quilômetro 34: às vezes, é preciso andar para continuar correndo

Rafael Franco correndo uma maratona, usando camiseta laranja, próximo à linha de chegada

O que a maratona me ensinou sobre atravessar anos difíceis sem parar.

Rafael Franco correndo uma maratona, usando camiseta laranja, próximo à linha de chegada

Se eu tivesse que resumir 2026 em uma imagem, diria que ele parece o quilômetro 34 de uma maratona.

Eu corro há muitos anos. Fiz minha primeira prova em 2010 e só fui correr uma maratona em 2024. Talvez isso já diga alguma coisa sobre a relação que construí com a corrida: nunca foi uma história de pressa. Foi uma história de tempo, experiência e, principalmente, de aprender a sustentar o ritmo.

Nos últimos meses, comecei a enxergar uma semelhança cada vez maior entre a corrida de longa distância e a vida de uma empresa.

No começo, todo mundo acha que consegue acelerar

A maratona tem uma armadilha curiosa. Nos primeiros quilômetros, quase tudo parece fácil demais. Você está descansado, preparado, cercado por gente e tomado pela energia da largada. A perna responde. A respiração está controlada. É tentador correr um pouco acima do que deveria.

O problema é que a maratona não cobra a conta na hora. Ela deixa você acreditar, por algum tempo, que aquela velocidade é sustentável. Só muitos quilômetros depois mostra quanto custou a empolgação do começo.

Aprendi que uma das maiores habilidades na longa distância não é saber acelerar. É saber se controlar quando você poderia acelerar.

Nos negócios, acontece algo parecido. Durante muito tempo, crescimento foi tratado quase como sinônimo de velocidade: crescer equipe, faturamento, novas frentes, vendas e investimentos. Mas empresa, assim como maratona, não é prova de cem metros.

O quilômetro 34

Quem já correu uma maratona sabe que existe um momento em que a prova muda. Para mim, essa imagem está perto do quilômetro 34.

Você já correu demais para fingir que está inteiro, mas ainda falta distância suficiente para não ignorar o que está sentindo. É ali que o corpo começa a negociar com a cabeça.

Talvez seja preciso diminuir o ritmo. Andar alguns metros. Beber água. Comer alguma coisa. Reorganizar a respiração. Fazer contas diferentes das que você fez na largada.

O plano que parecia perfeito no quilômetro 5 talvez já não sirva mais. Isso não significa que a prova deu errado. Significa que você chegou a uma parte em que inteligência vale mais do que vaidade.

2026 tem sido esse pedaço da prova

Este ano tem me feito pensar muito nisso. Não é um momento em que simplesmente acelerar resolve as coisas. O mercado está mais difícil, as empresas estão mais cautelosas e decisões que pareciam óbvias precisam ser pensadas com mais cuidado.

Na Alphacode, como em qualquer empresa que atravessa ciclos longos, existem anos em que você corre com vento a favor e anos em que precisa administrar cada quilômetro.

2026 tem sido um desses anos de administração. É preciso rever planos, escolher melhor onde colocar energia, cortar aquilo que pesa sem ajudar na prova, proteger caixa, preservar o time e continuar buscando oportunidades.

Em outros momentos, eu talvez interpretasse diminuir o ritmo como fracasso. Hoje penso diferente. Às vezes, andar alguns metros é exatamente o que permite voltar a correr depois.

Reduzir o ritmo não é desistir

Existe uma diferença enorme entre parar e reduzir o ritmo.

Parar é abandonar a prova. Reduzir o ritmo é continuar lendo a prova. É perceber que insistir na velocidade errada pode transformar um momento difícil em uma quebra definitiva.

Eu já senti isso correndo. Às vezes você precisa caminhar para controlar a frequência, recuperar a perna e continuar. Quem olha de fora pode achar que você está piorando. Você sabe que está fazendo exatamente o necessário para chegar ao fim.

Nos negócios, existe uma pressão permanente para aparentar aceleração. Parece que toda empresa precisa estar sempre crescendo, contratando, lançando, expandindo e anunciando alguma coisa.

Mas uma empresa longeva precisa aprender outra coisa: preservar capacidade para continuar existindo quando o cenário muda.

Não corra a prova dos outros

Outra coisa que a corrida me ensinou foi parar de olhar demais para a velocidade de quem está do lado.

Alguém passa por você e, quase instintivamente, dá vontade de acompanhar. Talvez aquele corredor esteja melhor treinado. Talvez tenha outra estratégia. Talvez esteja fazendo uma prova completamente diferente da sua.

Se você abandona seu plano para correr no ritmo dele, quem paga a conta é você.

Nos negócios, somos bombardeados pelo ritmo dos outros: a empresa que captou investimento, abriu uma unidade, dobrou de tamanho, apareceu na imprensa ou está contratando cem pessoas. Só que você não conhece necessariamente a prova que aquela empresa está correndo.

Depois de quase doze anos de Alphacode, tenho cada vez menos interesse em correr a prova de outra pessoa. Quero saber qual é o ritmo sustentável para a nossa.

Uma empresa também precisa chegar inteira

Demorei muitos anos para correr minha primeira maratona. E percebi que toda a experiência anterior importou quando cheguei lá: as provas menores, os treinos ruins, os dias em que corri mais rápido do que deveria e as vezes em que precisei aceitar que o corpo não respondia como eu queria.

Com empresa é parecido. Quase doze anos depois de fundar a Alphacode, tenho menos certezas absolutas do que tinha no começo. Em compensação, tenho muito mais repertório para entender quando acelerar, quando conservar e quando simplesmente continuar.

Talvez maturidade seja isso: parar de achar que força resolve tudo e começar a perceber que algumas provas são vencidas pela capacidade de permanecer.

Ainda estamos na prova

O quilômetro 34 não é confortável. Mas existe uma coisa importante sobre ele: você ainda está na prova.

Há muito caminho percorrido atrás de você e ainda existe caminho pela frente. Então você faz o que precisa ser feito: respira, recalcula, diminui o ritmo se for necessário, anda alguns metros se precisar e volta a correr.

Porque a corrida me ensinou uma coisa que tenho tentado lembrar também como empresário: às vezes, você precisa andar para conseguir terminar a maratona.

O importante é não confundir reduzir o ritmo com parar.

52 projetos vendidos e quase nenhum legado

Durante muitos anos, eu enxerguei a Alphacode com a cabeça de um programador.

E fazia todo sentido.

Antes de ser empresário, passei mais de 15 anos desenvolvendo software. Fui desenvolvedor júnior, pleno, sênior, coordenador, gerente e diretor.

Minha formação profissional inteira tinha me ensinado uma lógica relativamente simples: alguém precisava de um sistema, nós desenvolvíamos esse sistema, entregávamos e o trabalho estava concluído.

Quando fundei a Alphacode, naturalmente levei essa mesma lógica comigo.

Eu acreditava que tínhamos uma empresa de projetos de tecnologia. Nosso trabalho era vender projetos, desenvolver sistemas e entregá-los aos clientes.

Quanto mais projetos vendêssemos, maior seria a empresa.

Parecia óbvio.

Até eu começar a entender que programar talvez não fosse o fim.

Era apenas o começo.

Eu media o crescimento pelas coisas erradas

Durante os primeiros anos da Alphacode, duas métricas tinham um peso enorme para mim: a quantidade de projetos vendidos e a quantidade de pessoas trabalhando na empresa.

Se tínhamos vendido mais projetos do que no ano anterior, estávamos crescendo.

Se tínhamos contratado mais pessoas, estávamos crescendo.

Em 2019, por exemplo, vendemos 52 projetos.

Cinquenta e dois.

Naquela época, esse era um número que me dava orgulho. Era fácil olhar para aquilo e pensar que estávamos construindo uma empresa cada vez maior.

O problema é que eu estava confundindo movimento com progresso.

Grande parte dos nossos clientes naquele período eram startups ou empreendedores querendo tirar uma ideia do papel.

E não há absolutamente nada de errado nisso.

O problema estava naquilo que eu queria construir para a Alphacode.

Muitas dessas empresas recebiam o sistema, tentavam colocar o negócio de pé e, alguns meses depois, simplesmente desapareciam.

Nós voltávamos para o mercado e precisávamos encontrar outro cliente.

Vendíamos.

Desenvolvíamos.

Entregávamos.

E começávamos tudo outra vez.

Na época eu ainda não enxergava claramente, mas estávamos construindo uma empresa que precisava recomeçar todos os meses.

A planilha que mudou minha visão da Alphacode

A grande mudança começou quando fizemos nosso primeiro planejamento estratégico de verdade.

A Alphacode já tinha mais de cinco anos. Eu me sentei para analisar os números da empresa e descobri uma coisa que me incomodou profundamente.

Apenas 20% do nosso faturamento era recorrente.

Os outros 80% vinham principalmente das parcelas dos projetos que estávamos desenvolvendo.

Foi um choque.

Depois de mais de cinco anos construindo uma empresa, percebi que continuávamos dependendo enormemente do que vendêssemos no mês seguinte.

Era a famosa sensação de precisar matar um leão por dia.

Se parássemos de vender projetos, o faturamento começaria a desaparecer.

E havia algo ainda pior escondido nesses números.

Quando olhei algum tempo depois para aqueles 52 projetos vendidos em 2019, percebi que cerca de 90% deles já não estavam mais conosco.

O que parecia um grande ano comercial praticamente não havia deixado legado para a empresa.

Os projetos entravam.

Eram desenvolvidos.

Saíam.

Muitos dos negócios simplesmente deixavam de existir.

Foi quando comecei a perceber que talvez eu estivesse perseguindo a métrica errada.

A hospedagem me ensinou mais sobre negócios do que eu esperava

Uma das primeiras pistas já estava diante de mim havia algum tempo.

Comecei a perceber que, em determinados casos, tínhamos mais resultado ao longo do relacionamento com um cliente hospedando e sustentando aquilo que havíamos desenvolvido do que no próprio desenvolvimento inicial.

Aquilo parecia estranho para alguém com a minha formação.

Na minha cabeça de programador, o software era o produto.

Todo o resto vinha depois.

Na cabeça do empresário que eu começava a me tornar, passei a enxergar exatamente o contrário.

A programação inicial era apenas a porta de entrada.

Depois vinham hospedagem, sustentação, suporte, evolução, novas funcionalidades, integrações e anos de relacionamento.

Foi uma mudança importante de perspectiva.

O projeto deixou de ser o destino.

Passou a ser o primeiro passo de uma relação.

E isso mudou a maneira como começamos a escolher nossos clientes.

Tivemos que mudar nosso cliente ideal

Até aquele momento, atendíamos muitas startups e pessoas com boas ideias que queriam transformá-las em produtos digitais.

Mas começamos a fazer uma pergunta diferente:

Com quais clientes conseguimos imaginar uma relação daqui a cinco ou dez anos?

Isso nos levou a buscar cada vez mais empresas com negócios estabelecidos, faturamento real, operação existente e tecnologia ocupando um papel estratégico dentro da companhia.

Não significava simplesmente procurar empresas maiores.

Significava procurar relações mais longevas.

E essa mudança afetou tudo: a maneira de vender, o tipo de projeto que aceitávamos, os serviços que oferecíamos depois da implantação, a estrutura da equipe e até aquilo que passamos a considerar um bom cliente.

Mas havia outra transformação que precisava acontecer.

E talvez ela tenha sido ainda mais difícil.

Crescer por crescer estava cobrando uma conta

No final de 2019, perdemos alguns profissionais importantes em sequência.

Aquilo me marcou.

Hoje consigo relacionar parte daquele momento ao modelo que estávamos operando.

Tínhamos muitos projetos acontecendo simultaneamente, muita pressão por entrega e uma quantidade enorme de trabalhos que, depois de concluídos, simplesmente desapareciam da nossa rotina.

Era uma máquina alimentada por volume.

Mais projetos exigiam mais pessoas.

Mais pessoas exigiam mais projetos.

E a resposta para praticamente tudo era crescer mais.

Comecei a perceber que não adiantava construir uma empresa capaz de conquistar dezenas de clientes se não conseguíssemos construir relações duradouras nem com os clientes, nem com as pessoas que estavam construindo a empresa comigo.

Foi nesse período que criamos nosso grupo de liderança.

Passamos a reunir os principais líderes da empresa quinzenalmente para discutir não apenas projetos, mas a própria Alphacode.

Também estruturamos planos de carreira para pessoas que considerávamos fundamentais para o futuro da empresa.

Anos depois, existe um número que significa muito mais para mim do que aqueles 52 projetos vendidos em 2019:

os líderes que receberam aqueles planos de carreira em 2020 e 2021 continuam conosco até hoje.

Isso é crescimento.

Demorei um pouco para entender.

De 20% para 80%

Talvez a melhor maneira de explicar a transformação seja voltar para aquela primeira planilha.

Quando fizemos aquele planejamento estratégico, aproximadamente 20% do faturamento da Alphacode era recorrente.

Hoje essa relação praticamente se inverteu.

Cerca de 80% do nosso faturamento é recorrente e aproximadamente 20% vem de projetos.

Mas existe outro número de que gosto ainda mais.

Dos projetos que vendemos em 2021, algo entre 60% e 70% daqueles clientes continuam conosco em 2026.

Compare isso com 2019, quando aproximadamente 90% dos projetos vendidos já tinham desaparecido da empresa poucos anos depois.

Essa comparação diz muito mais sobre a evolução da Alphacode do que simplesmente saber quantos projetos vendemos em cada ano.

Porque hoje, quando conquistamos um cliente, nossa expectativa não é entregar um sistema e procurar o próximo.

Queremos construir algo juntos durante anos.

Eu precisei deixar de pensar apenas como programador

Talvez essa tenha sido uma das transições mais difíceis da minha carreira.

Programadores são treinados para entregar.

Existe um problema.

Existe uma solução.

Você desenvolve a solução.

Entrega.

Fim.

Empresas não funcionam assim.

Hoje sei que um projeto pode ser tecnicamente excelente e, ainda assim, ter pouquíssimo valor para a empresa que o desenvolveu.

Também sei que uma venda pode parecer pequena no primeiro ano e se transformar em uma relação extraordinária durante os dez anos seguintes.

Aprendi a olhar menos para o tamanho da primeira proposta e mais para o potencial da relação.

Menos para quantos projetos conseguimos colocar para dentro.

Mais para quantos clientes querem continuar dentro.

Menos para quantas pessoas conseguimos contratar.

Mais para quantas pessoas boas conseguimos fazer crescer conosco.

E talvez essa seja uma das maiores diferenças entre o programador que fundou a Alphacode e o empresário que eu tento ser hoje.

Se eu pudesse voltar para 2019 e conversar por alguns minutos com aquele Rafael que comemorava 52 projetos vendidos e media crescimento pela quantidade de gente dentro da empresa, não faria uma grande palestra sobre estratégia, margem, LTV ou receita recorrente.

Diria apenas:

Pare de focar em quantidade. Comece a focar em qualidade.

Demorei alguns anos para entender.

Mas, quando entendi, percebi que não precisava construir uma empresa que começasse novamente todos os meses.

Precisava construir uma empresa em que cada ano deixasse alguma coisa para o próximo.

A venda que me ensinou a dizer não para o cliente

Durante muito tempo eu achei que ser um bom fornecedor significava tentar atender ao máximo aquilo que o cliente pedia.

Hoje penso diferente.

Algumas das melhores decisões que tomei em vendas nos últimos anos foram justamente aquelas em que tive coragem de dizer:

Se precisa ser dessa maneira, talvez a Alphacode não seja a empresa certa para fazer esse projeto.

Mas eu não aprendi isso em um livro de vendas. Aprendi errando.

Os primeiros sinais estavam na primeira reunião

No começo de 2020, recebemos um contato que me deixou particularmente animado.

Era uma rede de restaurantes que eu admirava muito. Gostava da marca, do posicionamento e, principalmente, da qualidade dos produtos. Eles estavam crescendo e queriam construir um aplicativo para melhorar a experiência dos clientes.

Para mim, havia ainda um componente estratégico importante. Pouco tempo antes, tínhamos conquistado nosso primeiro grande cliente de Food, depois de uma concorrência que durou praticamente todo o ano de 2018. Eu começava a enxergar naquele mercado uma oportunidade enorme para a Alphacode.

Quando essa segunda grande marca chegou espontaneamente até nós, pensei que talvez estivéssemos começando a construir alguma coisa ali.

E eu queria muito aquele projeto. Talvez até mais do que deveria.

O cliente já tinha estudado bastante o que havíamos desenvolvido anteriormente. Mas rapidamente percebi uma diferença importante entre os dois projetos.

No nosso primeiro grande projeto de Food, a conversa girava muito em torno do negócio. Precisávamos vender, colocar o delivery no ar e fazer aquilo funcionar.

Nesse novo projeto, desde as primeiras conversas, o foco era diferente. Falávamos muito sobre design, experiência, animações, transições de tela e detalhes visuais.

Não havia nada de errado nisso. Uma boa experiência é parte fundamental de qualquer produto digital.

O que começou a me incomodar foi perceber que estávamos discutindo tudo aquilo antes de termos uma conversa suficientemente profunda sobre a pergunta principal:

O que esse aplicativo precisa produzir para o negócio?

Mesmo assim, naquele momento eu não confrontei essa visão. Dei espaço ao cliente.

Quando o cliente começou a escolher a tecnologia

Na época, nós tínhamos bastante experiência utilizando Ionic. Não era a tecnologia mais sofisticada do mundo, mas conhecíamos profundamente aquela stack.

Sabíamos suas limitações, tínhamos equipe, projetos reais rodando e conseguíamos entregar com velocidade e custo competitivo.

O cliente, entretanto, não gostava de alguns aspectos da experiência que tinha visto em outros aplicativos desenvolvidos daquela maneira, principalmente animações e transições.

Por isso, colocou uma condição para avançarmos: o aplicativo deveria ser desenvolvido em Flutter.

Hoje Flutter é uma tecnologia absolutamente estabelecida no desenvolvimento mobile. Mas estou falando do começo de 2020.

Era uma tecnologia relativamente nova, com documentação ainda limitada em alguns pontos e um ecossistema muito menor. E havia outro detalhe ainda mais importante: a Alphacode nunca tinha desenvolvido um projeto em Flutter.

Eu sabia que estávamos saindo da nossa especialidade. E aceitei.

Por que eu aceitei?

Essa talvez seja a parte mais importante dessa história.

Não foi porque eu acreditasse tecnicamente que aquela era necessariamente a melhor decisão. Aceitei porque queria o cliente.

Eu queria crescer naquele segmento. Tínhamos conquistado nossa primeira grande rede de Food e aquela seria a segunda. Era uma marca que eu admirava. Para mim, naquele momento, conquistar aquele logo tinha um valor estratégico enorme.

Deixei a vontade de fechar a venda falar mais alto do que a nossa convicção técnica.

E pagamos o preço por isso.

O problema não foi apenas tecnológico

Logo começaram a aparecer dificuldades.

Encontrávamos obstáculos técnicos para os quais ainda havia pouca documentação. Coisas que nossa equipe resolveria rapidamente dentro de uma tecnologia que dominava exigiam investigação, tentativa e erro.

O projeto começou a se estender. E quanto mais ele se estendia, mais problemas apareciam. A estabilidade também sofreu.

Só que o efeito mais importante não aconteceu dentro do código. Aconteceu no negócio.

O cliente começou a perder confiança para colocar toda a força naquele novo canal. O aplicativo entrou em uma espécie de soft launch infinito. Estava lá, funcionava, mas nunca recebia toda a energia que um novo canal digital precisa para ganhar relevância.

E então apareceu um ciclo que, depois de tantos anos trabalhando com produtos digitais, aprendi a temer:

  • o cliente não colocava energia porque o canal ainda não vendia;
  • o canal não vendia porque o cliente não colocava energia;
  • quanto menos vendia, menor era a disposição para investir;
  • quanto menor era o investimento, menos chance o canal tinha de vender.

Apesar de termos desenvolvido e colocado aquele produto no mercado, eu nunca o considerei um case de sucesso da Alphacode.

Entregar software e gerar resultado são duas coisas muito diferentes.

O aprendizado apareceu no cliente seguinte

Algum tempo depois, estávamos negociando com outro grande grupo de restaurantes. Era uma oportunidade ainda maior.

Durante uma das reuniões, a gerente responsável pelo projeto colocou uma condição parecida. Ela queria que o aplicativo fosse desenvolvido em React Native.

A situação era curiosamente familiar: uma grande marca, um projeto que eu queria muito e uma tecnologia que, naquele momento, não fazia parte da especialidade da Alphacode.

Só que dessa vez eu tinha uma experiência anterior na bagagem.

Parei a reunião e disse, em essência:

Se a utilização de React Native for uma condição para o projeto, eu acho que não faz sentido vocês avançarem com a Alphacode.

Pode parecer estranho para um vendedor dizer isso. Eu estava diante de um cliente enorme e basicamente dizia que preferia perder o contrato a aceitar uma condição que não considerava adequada para nós.

O cliente não estava contratando a Alphacode para concordar com ele. Estava contratando nossa experiência.

Um especialista precisa saber dizer não

Existe uma tentação muito grande em vendas de tecnologia de responder sempre: “Sim, conseguimos fazer.”

  • Quer React Native? Fazemos.
  • Quer Flutter? Fazemos.
  • Quer determinada arquitetura? Fazemos.
  • Quer trabalhar daquela maneira? Fazemos.

No curto prazo, essa postura pode ajudar a fechar contratos. Mas existe uma diferença enorme entre ser uma empresa capaz de executar determinada tecnologia e ser realmente especialista naquilo que está propondo.

Quando um cliente contrata uma empresa especializada, ele não está comprando apenas horas de programação. Está comprando também os erros que aquela empresa já cometeu, os projetos que deram certo, os que deram errado, as decisões técnicas que já precisaram ser revistas e os problemas de produção enfrentados de madrugada.

Parte da responsabilidade de um especialista é justamente impedir que o cliente tome determinadas decisões, mesmo quando ele está convicto delas.

Isso não significa arrogância. Também não significa que o fornecedor sempre está certo. Significa ter coragem de colocar sua experiência na mesa, inclusive quando isso coloca a venda em risco.

Algumas vendas você precisa estar disposto a perder

Curiosamente, aquela conversa no projeto seguinte não fez com que perdêssemos o cliente. Aconteceu o contrário. Avançamos, e aquele grupo acabou se tornando um dos grandes clientes da história da Alphacode.

Mas o principal aprendizado não é que dizer não ajuda a vender. Às vezes você vai dizer não e realmente vai perder o contrato.

O aprendizado que ficou para mim é outro: existem projetos que você só deveria aceitar se estiver disposto a defender aquilo em que acredita.

Eu queria tanto conquistar aquela segunda grande marca de Food que aceitei uma condição que contrariava aquilo que nossa experiência recomendava naquele momento.

O projeto aconteceu. O aplicativo foi entregue. O logo poderia perfeitamente estar em uma apresentação comercial nossa como mais um grande case.

Mas eu sei o que aconteceu nos bastidores. E talvez seja justamente por isso que considero essa experiência tão importante na minha trajetória.

Nem todo projeto que não se transforma em um grande case foi inútil. Alguns deles servem para construir algo muito mais valioso: experiência.

Experiência para reconhecer os sinais mais cedo, fazer perguntas melhores e, quando necessário, dizer não antes que a vontade de fechar uma venda fale mais alto do que a responsabilidade de entregar resultado.