Quando se fala em fintech, a conversa quase sempre começa pela tecnologia.
App, UX, APIs, integração com bancos, PIX, cartão, antifraude, escalabilidade.
Tudo isso é importante.
Mas não é o maior gargalo.
Na prática, muitas fintechs de crédito não quebram por falha técnica, quebram por estrutura financeira mal planejada.
Tecnologia resolve operação. Funding sustenta o negócio.
Uma fintech de crédito pode ter:
• um app bem construído
• uma jornada fluida
• um motor de crédito eficiente
• boas integrações
E ainda assim entrar em colapso.
O motivo costuma ser simples: capital insuficiente, mal estruturado ou mal separado.
Crédito não é só produto.
Crédito é, antes de tudo, balanço.
O erro clássico: tratar funding como etapa futura
Vejo com frequência fintechs que pensam assim:
“Vamos lançar o produto, ganhar tração e depois pensamos em funding.”
Esse raciocínio funciona para alguns tipos de startup.
Para fintech de crédito, é perigoso.
O funding não é um acessório do negócio.
Ele é parte do desenho do produto.
• Quem financia a operação?
• Qual o custo desse capital?
• Ele escala junto com a carteira?
• Existe descasamento entre prazo de captação e prazo de recebimento?
Se essas perguntas não estão respondidas desde o início, o risco é estrutural.
Quando a tecnologia vira bode expiatório
Outro padrão comum: quando a fintech começa a enfrentar problemas, a culpa cai na tecnologia.
• “Precisamos reescrever o sistema”
• “A stack não aguenta”
• “O core bancário não escala”
Às vezes isso é verdade.
Mas muitas vezes a tecnologia só está expondo um problema financeiro mal resolvido.
Sem previsibilidade de caixa:
• não existe crescimento sustentável
• não existe governança
• não existe confiança de investidores ou credores
Fintech de crédito não vive só de equity
Outro ponto crítico: dependência excessiva de equity.
Rodadas de investimento ajudam, mas:
• diluem os fundadores
• criam pressão por crescimento acelerado
• nem sempre resolvem o problema do capital de giro
Fintech madura precisa pensar em:
• dívida
• estruturas híbridas
• instrumentos de mercado de capitais
• funding alinhado ao modelo operacional
É aí que muitas operações travam.
Funding é estratégia, não socorro
Quando o funding entra apenas como “salvação” depois que o caixa acabou, as opções ficam piores:
• capital mais caro
• exigências mais duras
• menos poder de negociação
As fintechs mais sólidas pensam diferente:
funding é parte da arquitetura do negócio, assim como tecnologia e jurídico.
O ponto central
Tecnologia é essencial.
Mas não é o maior gargalo.
O maior gargalo das fintechs de crédito é:
• não tratar funding como pilar estratégico
• não alinhar capital, risco e crescimento
• não desenhar a operação já pensando em escala financeira
Quem entende isso cedo:
• cresce melhor
• sofre menos
• mantém controle
• e constrói uma fintech muito mais resiliente
Nos próximos artigos, vou aprofundar:
• erros comuns de funding
• quando equity deixa de ser a melhor opção
• como decisões técnicas impactam captação
• e alternativas como dívida e mercado de capitais
Porque fintech que quer crescer de verdade precisa olhar além do código.

