Os 4 erros mais comuns de funding em fintechs iniciantes

Criar uma fintech nunca foi tão acessível do ponto de vista tecnológico. APIs abertas, Banking as a Service, PIX, Open Finance e infraestrutura em nuvem reduziram drasticamente a barreira de entrada.

Mas existe um ponto que continua sendo crítico e pouco compreendido por muitos fundadores: o funding.

Ao longo dos últimos anos, acompanhando de perto a estruturação de fintechs e projetos financeiros, percebo que os erros não estão apenas no produto ou na tecnologia. Muitas vezes, estão na estratégia financeira que sustenta o negócio.

Aqui estão os quatro erros mais comuns que vejo em fintechs iniciantes quando o assunto é funding.

1 – Confundir captação com validação de negócio

Existe uma crença perigosa no mercado: se consegui captar, então meu negócio está validado.

Captação não é validação. É apenas confiança temporária do mercado na sua tese.

Uma fintech pode levantar um bom cheque e ainda assim não ter product market fit, não ter unit economics saudáveis ou não ter clareza sobre CAC e LTV.

O problema é que, quando o dinheiro entra antes da maturidade do modelo, ele mascara ineficiências. Times crescem rápido demais, estrutura incha, decisões ficam menos disciplinadas.

Validação vem de clientes pagando, recorrência sustentável e crescimento consistente. Funding deve acelerar algo que já funciona, não tentar salvar algo que ainda não provou seu valor.

2 – Subestimar o capital necessário para compliance e estrutura regulatória

Fintech não é apenas tecnologia. É tecnologia + regulação + risco.

Muitos fundadores vêm do mundo digital tradicional e subestimam o custo e a complexidade de:

• Estrutura regulatória
• Compliance
• PLD e prevenção à fraude
• Auditorias
• Capital mínimo regulatório
• Governança

Quando esses custos aparecem, o caixa já está pressionado.

O resultado é uma fintech que cresce comercialmente, mas sofre com riscos jurídicos, atrasos em autorizações ou exposição regulatória.

No mercado financeiro, governança não é opcional. É parte estrutural do negócio. O funding precisa considerar isso desde o dia zero.

3 – Não estruturar funding alinhado ao modelo de receita

Outro erro clássico é captar capital com estrutura inadequada para o tipo de fintech que está sendo construída.

Fintechs de crédito, por exemplo, têm dinâmica completamente diferente de fintechs de pagamento ou infraestrutura financeira.

No crédito, além do funding operacional, existe o funding para carteira. E são coisas diferentes.

Se o empreendedor não entende essa distinção, pode usar capital caro para financiar carteira ou estruturar crescimento sem previsibilidade de funding recorrente.

Isso cria um efeito dominó:

• Crescimento desacelera
• Custo de capital aumenta
• Investidores ficam desconfortáveis
• Margem evapora

Fintech não pode crescer apenas em usuários. Precisa crescer com estrutura financeira inteligente.

4 – Focar demais em valuation e pouco em estrutura

Vejo muitos fundadores negociando valuation como se fosse o principal objetivo da rodada.

Valuation é consequência de percepção de risco e potencial de retorno. Mas o que realmente importa é:

• Quem está entrando no cap table
• Quais são as cláusulas
• Qual o nível de diluição
• Qual a governança pós rodada
• Quais direitos foram concedidos

Uma rodada mal estruturada pode engessar decisões futuras, dificultar novas captações ou gerar conflitos societários.

Já vi fintechs promissoras perderem flexibilidade estratégica por erros cometidos na primeira rodada.

Funding é uma decisão estrutural. Não é apenas um evento financeiro.

Conclusão: fintech é disciplina financeira antes de ser tecnologia

É comum associar fintech a inovação, disrupção e crescimento acelerado.

Mas a verdade é que fintech é, antes de tudo, disciplina financeira aplicada à tecnologia.

Funding não resolve modelo frágil. Não substitui governança. Não corrige unit economics ruins.

O que sustenta uma fintech no longo prazo é:

• Clareza estratégica
• Estrutura regulatória sólida
• Modelo de receita bem definido
• Gestão financeira rigorosa
• Tecnologia robusta e escalável

O capital deve potencializar essas bases, não compensar a ausência delas.

Se você está estruturando uma fintech ou pensando em captar, a pergunta mais importante talvez não seja quanto você vai levantar.

Talvez seja: sua estrutura está pronta para sustentar esse capital?

Porque, no mercado financeiro, crescer rápido sem estrutura não é ousadia.

É risco.

E risco mal calculado costuma cobrar caro.

Debêntures no funding de fintechs: por que esse tema é central para quem quer escalar

Quando alguém decide criar uma fintech, normalmente pensa primeiro no produto, depois na tecnologia e só então no dinheiro. Na prática, essa ordem quase sempre está invertida. Em fintechs, o funding não é consequência do crescimento. Ele é parte estrutural do negócio.

Empresas que atuam com crédito, pagamentos, antecipação de recebíveis ou modelos de Banking as a Service dependem de capital para funcionar. Diferente de um SaaS tradicional, onde o crescimento acontece principalmente por aquisição de clientes, uma fintech só cresce se tiver dinheiro disponível para operar. É exatamente nesse ponto que as debêntures começam a fazer sentido.

Nos últimos anos, esse instrumento deixou de ser exclusivo de grandes corporações e passou a fazer parte do radar de fintechs mais maduras, que buscam crescer sem abrir mão do controle do negócio.

O problema do funding quando a fintech começa a crescer

No início, quase toda fintech nasce com capital próprio dos fundadores ou com algum investimento anjo. Isso funciona bem para validar o produto, testar o modelo e conquistar os primeiros clientes. O problema surge quando o negócio começa a escalar.

Nesse momento, aparecem três caminhos clássicos: buscar novos investidores, recorrer a bancos ou estruturar o funding via mercado de capitais. Cada um deles traz implicações importantes.

A entrada de investidores acelera o crescimento, mas dilui a participação dos fundadores. Em muitos casos, essa diluição acontece cedo demais. Já os bancos tradicionais costumam ter dificuldade em entender modelos financeiros inovadores, exigindo garantias e estruturas que nem sempre fazem sentido para fintechs.

É nesse espaço entre o equity e o crédito bancário que as debêntures ganham relevância.

Afinal, o que é uma debênture

Debênture é, essencialmente, uma forma de captação de recursos no mercado de capitais. A empresa emite um título de dívida, investidores compram esse título e, em troca, recebem juros ao longo do tempo e o valor investido no vencimento.

O ponto central é que o investidor não se torna sócio da empresa. Ele se torna credor. Isso muda completamente a lógica da relação.

Para a fintech, isso significa acesso a capital sem diluição societária. Para o investidor, significa previsibilidade de retorno e risco calculado, desde que a operação seja bem estruturada.

Por que debêntures se encaixam tão bem em fintechs

Fintechs que operam com crédito ou pagamentos costumam ter algo muito valioso: previsibilidade de fluxo financeiro. Carteiras de recebíveis, contratos recorrentes e modelos bem definidos permitem estruturar operações de dívida com mais segurança.

Além disso, o custo do capital captado via debêntures pode ser mais competitivo do que linhas bancárias tradicionais, especialmente quando a empresa já possui governança mínima, controles financeiros organizados e um modelo de negócio claro.

Outro ponto importante é a maturidade que esse tipo de operação exige. Emitir uma debênture força a fintech a organizar processos, melhorar transparência e adotar práticas de governança que, cedo ou tarde, seriam necessárias de qualquer forma.

O momento certo para pensar em debêntures

Debêntures não são uma solução para o estágio inicial. Uma fintech ainda em fase de ideia ou MVP precisa focar em validação, produto e aderência ao mercado. Nesse momento, falar em mercado de capitais é prematuro.

Esse instrumento começa a fazer sentido quando o negócio já roda, possui histórico operacional, gera receita e consegue demonstrar previsibilidade. É quando a conversa deixa de ser “ideia promissora” e passa a ser “operação estruturada”.

Pular etapas costuma ser um erro caro.

O erro estratégico que muitos fundadores cometem

Um dos erros mais comuns é pensar no funding apenas quando o dinheiro acaba. O correto é exatamente o oposto. O modelo de funding precisa ser considerado desde o desenho inicial da fintech.

A arquitetura tecnológica, o modelo jurídico, a forma como o dinheiro circula na operação e até as integrações escolhidas impactam diretamente a viabilidade de uma debênture no futuro. Corrigir isso depois costuma ser mais caro, mais lento e mais arriscado.

Fintechs bem-sucedidas não improvisam funding. Elas planejam.

O que vem a seguir nesta série

Nos próximos artigos, vou aprofundar como debêntures se comparam a outros instrumentos usados por fintechs e securitizadoras, como FIDCs e estruturas de securitização. Também vou mostrar como essas operações são estruturadas na prática, quais riscos precisam ser observados e para onde esse mercado está caminhando.

A ideia é tirar o tema do discurso técnico e trazer para a realidade de quem está construindo um negócio de verdade.

Quer estruturar sua fintech do jeito certo desde o início?

Se você está pensando em criar uma fintech ou já iniciou sua operação e sente que o modelo financeiro ainda não está claro, uma boa estruturação no começo faz toda a diferença.

Eu atuo com consultoria estratégica para criação e estruturação de fintechs, ajudando fundadores a alinhar tecnologia, modelo de negócio e funding desde o primeiro passo. O objetivo não é apenas colocar a fintech de pé, mas prepará-la para crescer de forma sustentável.

👉 Se quiser conversar sobre o seu projeto, entre em contato.

Uma fintech sólida não nasce por acaso. Ela é construída com decisões certas no início.